Esses dias me deparei com uma prescrição contendo ao mesmo tempo a piperacilina-tazobactam e o metronidazol para o tratamento de uma infecção intra-abdominal. Imediatamente me veio na mente pensamentos de julgamento.
Essa situação pode ocorrer principalmente quando o paciente inicia um tratamento para infecções intra-abdominais com o esquema ceftriaxona + metronidazol e decidem escalonar a cobertura para piptazo.
A ceftriaxona vai cobrer os bacilos gram negativos entéricos (BGNs), ao passo que o metronidazol vai cobrir os anaeróbios. As vezes trocam a ceftriaxona pelo piptazo e mantêm o metronidazol. A questão é que o piptazo sozinho já cobre tanto os BGNs como os anaeróbios, ainda ampliando o espectro para pseudomonas e podendo alcaçar algumas cepas resistentes a cefalosporinas. Portanto, de forma geral não faz sentido um esquema de piptazo com metronidazol pois o piptazo já cobre os anaeróbios que são o motivo corriqueiro de fazer metronidazol.
Entretanto… esse paciente em questão estava tratando um abscesso hepático e o metronidazol foi mantido para a cobertura de um possível abscesso amebiano, fazendo total sentido.
Outra situação que a associação faz sentido seria no paciente que está em uso de piptazo para tratar uma infecão qualquer (pneumonia, por exemplo) e desenvolve também uma colite por Clostridioides difficile. Claro que o normal é tratar a colite com vancomicina oral mas o metronidazol pode ser uma opção em casos leves.
Fica aí mais uma lição pra não sair julgando precipitadamente os coleguinhas.