← Início Sobre 🗎

O desafio de diagnosticar a SHU atípica

Publicado em 20/03/2026 por Filipe Mosca


A síndrome hemolítico urêmica após quadros de diarreia é um assunto bem batido tanto em provas de residência como na prática diária da pediatria. Mas a condição da “SHU atípica” vem ganhando visibilidade ao longo dos anos pelas novas drogas disponíveis para tratar uma condição rara que há alguns anos nem era descrita.

É uma doença que ainda vem sendo estudada e que cada fonte vai categorizando de uma forma diferente. Inclusive, o uso da nomeclatura “atípica” vem sendo desaconsalhado, sendo preferido chamar de “SHU complemento-mediada”. Mas existe também a SHU secundária a uma infinidade de outras causas e mesmo as secundárias também podem ser complemento-mediadas.

A suspeita parte do conhecimento que a SHU é uma MicroAngiopatia Trombótica (MAT), classicamente com a tríade de anemia hemolítica microangiopática + trombocitopenia + lesão renal aguda. Entretanto, existem casos de SHU sem nenhum achado hematológico que só são descobertas após a análise histopatológica da biópsia renal1.

Esse artigo da Blood que citei é muito interessante pois comenta justamente sobre o dilema diagnóstico e traz 2 casos muito interessantes. O primeiro caso, inclusive, fica a dúvida no ar se não foi uma SHUa secundária (pela gestação/HELLP? pela gastroenterocolite?) que iria melhorar independentemente de ter sido iniciado o inibidor de C5.

No fim das contas o diagnóstico de SHUa é de exclusão. Não existe nenhum teste diagnóstico que confirme a doença. Fui atrás de alguns artigos e o que mais abordou especificamente o tópico do fluxograma diagnóstico foi um artigo de revisão publicado na Jornal of Clinical Medicine em 20252. Ele sugere um passo a passo simples conforme o print abaixo:

Fluxograma pra Dx SHUa

Outra armadilha é que a SHUa pode se apresentar com um quadro igual ao de uma nefrosclerose hipertensiva maligna e a própria nefroesclerose hipertensiva maligna pode fazer uma quadro secundário de MAT3 –- o que veio primeiro, o ovo ou a galinha?

Aí você se pergunta, tá, mas quais causas secundárias devem ser excluídas? E é um belo “te vira”. Dentre as drogas possíveis, uma das principais são a classe dos inibidore de calcineurina (como tacrolimo), mas existe uma grande tabela no UpToDate com outras das principais drogas associadas.

Mesmo na aSHU secundária, fontes como o UpToDate colocam que o tratamento com os inibidores de complemento pode ser tentado se não houver melhora com o tratamento da causa base.

Drug-induced TMA – Stop the implicated drug. If the TMA does not resolve or kidney function does not improve, treatment with anti-complement therapy may be reasonable”4

TMA associated with autoimmune disorders – Treatment of the underlying disorder. Some studies support a role of complement as a pathogenic driver in some of these TMAs, such as those associated with systemic lupus erythematosus (SLE) or antiphospholipid syndrome (APS). Treatment with anti-complement therapy may be reasonable if the TMA does not resolve or kidney function does not improve”4

Já no quesito SHUa secundária a infecções, a tabela do artigo do Lancet3 até coloca como opção tentar usar os inibidores de C5 nos casos que não melhoram com o tratamento específico, mas não encontro essa recomendação formalizada em nenhum documento. Tentei até jogar no OpenEvidence e ele só diz que seria um tratamento off-label.

Não bastassem essas milhões de dúvidas pra dar o diagnóstico, toda investigação ainda precisa ser rápida pois um quadro agudo de SHUa tem que ser rapidamente tratado para evitar perda definitiva de função renal. E a introdução dos inibidores de C5 no arsenal terapêutico chegou para mudar o desfecho de muitos desses pacientes.

O ideal depois é fazer o estudo genético com pesquisa de mutações que alterem a função do complemento, pensando numa causa hereditária. Serve tanto pra corroborar o diagnóstico como pra avaliar a segunça de tentar suspender o uso do inibidor de C5 sem o risco da doença retornar. É possível também a dosagem de antoanticorpos contra fatores que regulam o complemento, principalmente o anti-fator-H, pensando numa causa adquirida autoimune.

O diagnóstico vai continuar sendo desafiador e a dúvida de iniciar ou não o inibidor de C5 vai continuar existindo, principalemnte nas causas secundárias. No futuro talvez teremos mais conhecimento sobre a doença e seus mecanismos para guiar melhor o tratamento.

Recomendo a leitura dos artigos abaixo e também do artigo do NEJM que é mais antigo mas fala sobre MAT de forma geral.5

Referências

  1. Fakhouri F, Schwotzer N, Frémeaux-Bacchi V. How I diagnose and treat atypical hemolytic uremic syndrome. Blood. 2023;141(9):984-995. https://doi:10.1182/blood.2022017860 

  2. Bogdan R-G, Anderco P, Ichim C, Cimpean A-M, Todor SB, Glaja-Iliescu M, Crainiceanu ZP, Popa ML. Atypical Hemolytic Uremic Syndrome: A Review of Complement Dysregulation, Genetic Susceptibility and Multiorgan Involvement. Journal of Clinical Medicine. 2025; 14(7):2527. https://doi.org/10.3390/jcm14072527 

  3. Michael M, Bagga A, Sartain SE, Smith RJH. Haemolytic uraemic syndrome. The Lancet. 2022;400(10364):1722-1740. https://doi:10.1016/S0140-6736(22)01202-8  2

  4. Chaturvedi S, Cuker A, Tirnauer JS. Diagnostic approach to suspected TTP, HUS, or other thrombotic microangiopathy (TMA). UpToDate Inc. Accessed March 19, 2026. https://www.uptodate.com/contents/diagnostic-approach-to-suspected-ttp-hus-or-other-thrombotic-microangiopathy-tma  2

  5. George JN, Nester CM. Syndromes of thrombotic microangiopathy. N Engl J Med. 2014;371(7):654-666. https://doi:10.1056/NEJMra1312353 



quadroclinico.com © 2025-2999 CC BY-SA 4.0